Homenagem a Junito Brandão

por Amós Coelho da Silva

O Professor Junito de Souza Brandão escreveu na Revista VERBUM, de 1950, o artigo A Tragédia de Sófocles: Édipo Rei, quando contava então vinte e seis anos. Nesse artigo, já há sólido conhecimento do mundo helênico, retirado não apenas de bibliografia mas também do curso Arqueologia, Epigrafia e História da Grécia na Universidade de Atenas, onde vivenciou edificações, paisagens e costumes preservados como patrimônio da humanidade. Isso logo após a sua licenciatura em Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Estado da Guanabara.

Junito Brandão, que se formaria em Direito, foi, de fato, preparado para a vida jurídica numa escola secundária, administrada por jesuítas, mas como não conseguiu evitar o seu pendor para as letras e, por isso mesmo, consideramos como a sua maior conquista a de Bacharel em Letras Clássicas pela PUC, em 1948. 

Somem-se a 1950 quarenta e cinco anos de intensa atividade acadêmica, incansável apesar das condições sócio-econômicas de trabalho de um professor no Brasil. Explorou em várias obras publicadas, conforme indicação abaixo, o seu profundo estudo de grego, latim, sânscrito e bibliografia alemã, inglesa, francesa, italiana, espanhola e portuguesa. E com domínio tão fecundo que encetou, por exemplo, uma pesquisa da tetralogia de Wagner, onde reside a base do mito nórdico, a fim de estabelecer as similitudes com o mito grego, ao qual a mitologia nórdica nada deve em influência, permanecendo em situação de adstrato, conceito filológico aplicado aqui mutatis mutandis. Eis que esse empreendimento, como também um dicionário etimológico de palavras portuguesas oriundas do grego, o qual já tinha alcançado o estágio de mais dois mil verbetes na letra A, consciente da escassez desse projeto nos idiomas herdeiros da civilização helênica, não pôde ser completado, suspendendo-o com seu falecimento em 15 de maio de 1995. Seriam essas investigações em Letras Clássicas que preencheriam lacunas nos países de língua portuguesa. 

Dentre múltiplas atividades importantes destacamos as seguintes: além de lecionar e prestar outros valiosos serviços a PUC – RJ, Universidade Gama Filho, Santa Úrsula e outras instituições, foi Diretor da Academia Brasileira de Teatro do Rio de Janeiro de 1956 a 1971. Foi aprovado em 1989 como Professor Adjunto da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro através de Concurso Público de Provas e Títulos. Em 1990, fundou o Instituto C.G. Jung do Rio de Janeiro. Ocupou a cadeira 35, Patrono João Ribeiro, da Academia Brasileira de Filologia. Pertenceu à Sociedade Propagadora das Belas Artes, Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e ao Instituto Internacional de Heráldica e Genealogia. 

Ministrou cursos como os de Mitologia Greco-Latina; Tragédia Grega, Latina e Portuguesa; O Teatro e sua Sobrevivência na Literatura Ocidental; Herança e Sobrevivência do Teatro Grego no Teatro Latino, Francês e Português; Nomes e Epítetos Provindos do Grego; Comédia Grega, Latina e Brasileira; As Grandes Epopéias Universais; Mitologia Egípcia, Grega e Latina; Teatro Egípcio e Grego; Extensão Cultural para a Mulher; Mitologia Comparada; Lirismo Grego e Latino: de Safo a Cartola (Pós-Graduação, lato sensu); Os Sete Gatinhos de Nélson Rodrigues; Simbolismo Religioso; Jung: o Inconsciente Coletivo e as Religiões; O Banquete de Platão; Os Lusíadas; Mitologia Grega e Psicologia Junguiana; Os Doze Trabalhos de Hércules; A Mitologia na Ficção Literária; Eros e Psique; Mito Grego e Psicologia Analítica; O Feminino no Mito;  O Homem e a Morte... todos sob diversos auspícios, como PUC - Pontifícia Universidade Católica - RJ, UGF - Universidade Gama Filho - RJ, USU - Universidade Santa Úrsula - RJ, USP - Universidade de São Paulo - SP, UNICAMP - Universidade de Campinas - SP, Centro Cultural Cândido Mendes - RJ, Sintagma Empreendimentos Culturais e Artísticos - RJ, Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica - RJ etc. Essa relação cresceria muito mais, se acrescentássemos suas participações em Bancas Examinadoras de Exame Vestibular, Concessão de Registro de Professor e Pós-Graduação. Mas a atuação do Professor Junito ainda é mais abrangente com palestras, conferências e seminários; notícias e críticas sobre as suas obras, bem como entrevistas a jornais e revistas, que estão documentadas, como se lê em O Estado de São Paulo, Play Boy, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Folha da Tarde, Leia, Estado de Minas, Grupo Mineiro de Simbólica Junguiana, Tribuna da Imprensa etc.; artigos e prefácios a obras de diversos autores são muitos no seu Curriculum Vitae.

As suas publicações abrangem preocupações didáticas com a gramática latina, com O Latim para o Vestibular, Latim para o Ginásio (3a. e 4a. séries), onde fica ressaltada a imprescindível importância do estudo latino para o estudante brasileiro, que conviverá profissional e afetivamente com elementos herdados da Roma Antiga. O alcance de suas obras é do interesse de todos aqueles que estudam, tais como professores, atores, jornalistas, críticos de arte e artistas em geral, assim mesmo se lê no Volume I, de Mitologia Grega, p.15-16:

Se, a princípio, o estudo do mito nos interessou como um auxiliar poderoso e indispensável para melhor compreensão das línguas grega e latina e sobretudo de suas respectivas literaturas, a partir de 1982, quando começamos a trabalhar em dupla, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com o Psiquiatra e Analista Carlos Byington, é que percebemos com mais clareza o peso do mito, esse inesgotável repositório de símbolos, que realizam “a interação do Consciente com o Inconsciente Coletivo”. É exatamente esse “tipo de mito” que procuramos transmitir não só a nossos alunos (...), mas particularmente a Universitários, Professores, Psicólogos, Psiquiatras e Analistas (...).

Assim, também do seu acervo Os Idílios de Teócrito e as Bucólicas de Vergílio; Empréstimos Gregos nas Éclogas de Vergílio; De Homero a Jean Cocteau; Teatro Grego: Origem e Evolução e Teatro Grego: Tragédia e Comédia são contribuições para o panorama cultural do Brasil. As suas traduções, diretamente do grego, como Duas Tragédias Gregas: Édipo Rei (Sófocles), Hécuba (Eurípides); O Ciclope (Eurípides); As Rãs; As Nuvens e As Vespas (Aristófanes)  dispõem de uma introdução elaborada a partir de atualizada bibliografia e notas de rodapé que apresentam esclarecimentos que colocam o leitor dentro do real legado helênico com o qual convive-se e desconhece-se, que, por desconhecer, cometem-se truísmos como o de citar como recente um pensamento já outrora exaustivamente refletido na Antiga Grécia. Não falamos aqui da sua esplêndida tradução de Os Persas de Ésquilo da qual temos uma cópia e da fita de vídeo sobre a tragédia grega, que não dispomos e ficaram sem publicação.

Enfim, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, professores, jornalistas e estudantes universitários, principalmente os que são ligados às letras e artes, no seu sentido mais amplo possível, só se completarão nos assuntos clássicos, se lerem suas obras, editadas na Vozes, como Mitologia Grega; Helena: o Eterno Feminino; Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega e Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia e da Religião Romana, onde são inevitáveis o justo preito e homenagem que os nossos esforços puderam colimar aqui.

 

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